quinta-feira, 21 de junho de 2007

A UNE DE VOLTA PRA LUTA

EDITORIAL

Chegamos a mais um Congresso da União Nacional dos Estudantes, o 50 CONUNE. A história da nossa entidade nacional se inicia em 1937. Este ano completa 70 anos, mas pouco podemos comemorar daquela UNE que nos serviu como instrumento de luta e organização.
Neste CONUNE alguns chegam curiosos, outros pessimistas, outros esperançosos em ver a UNE de volta pra luta. De uma história de enfrentamento e resistência resta pouco na atual UNE. A mesma UNE que combateu de peito aberto a ditadura hoje defende uma “reforma” universitária que aprofunda o projeto de privatização da educação superior brasileira e faz parceria com a Rede Globo (que tanto apoiou e se beneficiou da ditadura) para contar a historia do Movimento Estudantil no Brasil. Essa UNE não fala em nosso nome!
Percebemos estas contradições e nos indignamos. Estudantes de todo país, de universidades públicas e privadas, levantam-se para enfrentar esta falsa reforma universitária e lutar pelo direito de todos a uma educação pública e gratuita. Mesmo com a UNE na contramão dos nossos interesses, servindo como instrumento do governo federal, o movimento estudantil vem se reorganizando e dando mostras do seu potencial combatente e transformador. Nas diversas ocupações das reitorias pelo Brasil e nos atos de rua, a cada ano mais freqüentes, o movimento estudantil mostra que não está morto.
Os que ainda permanecem esperançosos saúdam os lutadores e lutadoras, sabendo que é possível reconstruir um movimento estudantil protagonista na mudança da realidade, ligando-se profundamente ao povo explorado e fazendo das lutas deste povo sua própria luta. É hora de reorganizar o movimento estudantil, de baixo pra cima, rechaçando velhas práticas burocráticas e viciadas, trazendo, só assim, a UNE de Volta pra Luta!

Conjuntura Internacional - ALERTA QUE CAMINHA A ESPADA DE BOLIVAR PELA AMÉRICA LATINA

A conjuntura mundial, atualmente, é marcada pela crise estrutural do domínio do capital. Esta crise constitui um momento em que o sistema do capital em seu conjunto se aproxima de seus limites históricos e sistêmicos, ao converter a produção destrutiva em elemento determinante do processo de acumulação e reprodução do capital, e ao subordinar à sua lógica a produção genuína. Isso quer dizer que a violência (o aumento da criminalidade comum, as guerras, o terrorismo de Estado, etc.), o desemprego, a retirada de direitos dos trabalhadores, a fome, a miséria, e o desespero das amplas massas são necessários para a continuidade do processo auto-expansivo e auto-reprodutivo do capital. Por essa razão, lutar pelo socialismo não só é possível como é necessário, pois hoje a sobrevivência do sistema do capital depende da destruição da humanidade.
Na América Latina têm surgido alternativas ao domínio do imperialismo, que colocam hoje o subcontinente num novo patamar, mais elevado e positivo, de enfrentamento dos Estados Unidos. Estas alternativas se vitoriosas, além de abrirem enormes potencialidades para a conquista da “segunda e definitiva independência”, mudariam a correlação de forças do sistema mundial de poder, na medida em que a libertação da América Latina significaria o enfraquecimento da potência bélica mais poderosa do mundo.
Por essa razão, fortalecer e levar a revolução bolivariana, entendida como revolução não apenas venezuelana, mas latino-americana, até o fundo e até o fim é estratégico para a revitalização do comunismo como alternativa humanizadora ao domínio destrutivo do capital. A revolução na Venezuela, sob liderança de Hugo Chávez, já tem inúmeras conquistas. Na educação acabou com o analfabetismo e com o vestibular e criou novas universidades e escolas que pretendem universalizar a educação pública e gratuita, e construir uma nova educação que busca desenvolver todas as potencialidades do ser humano dentro de uma nova sociedade.
É imprescindível defender a Bolívia que começa dar seus primeiros passos pela conquista da soberania nacional e a aprofundar as condições para travar um processo revolucionário pelo socialismo. A nacionalização dos hidrocarbonetos e uma campanha educacional que já alfabetizou 76 mil pessoas e alfabetizará 315 mil em breve, através do método “yo sí puedo” dos cubanos, são algumas das importantes conquistas.
Derrotar o imperialismo no continente passa também por derrotar o governo fascista de Uribe da Colômbia, maior aliado dos EUA na América Latina. Portanto, apoiar realmente a luta do povo colombiano, de seus partidos e movimentos de esquerdas, entre eles, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, também é estratégico. A Colômbia vive sob uma ditadura, na qual, paramilitares, aliados às Forças Armadas oficiais do governo, só entre 1992 e 1999 executaram 19.000 pessoas e nos primeiros anos de 2000 mataram 1.035. Neste último mês de maio de 2007, iniciou-se no país um grande movimento contra o Programa Nacional de “Desenvolvimento” do governo, que pretende cortar verbas, principalmente para a educação. Em protesto, estudantes universitários declararam greve geral, professores paralisaram, e 1 milhão e 500 mil pessoas foram para as ruas e 200 mil na capital, nos dias 23 e 30 de maio, respectivamente. A solidariedade internacional ao povo colombiano é urgente, a omissão só fortalece a ditadura pró-imperialista de Uribe.
A derrota do imperialismo e a liberdade de todos os países do mundo passam pela solidariedade entre todos os povos. Cuba tem sido exemplo disto. Esta Ilha que há mais de quarenta anos resiste ao bloqueio econômico e aos atentados terroristas dos EUA, mantém viva a esperança de que existe saída para a humanidade, que é possível viver numa sociedade sem analfabetismo, sem pobreza, com uma educação universal e saúde da melhor qualidade para todos.

Conjuntura Nacional - RESISTIR AO PAC E AS CONTRA-REFORMAS DO GRANDE CAPITAL

Anunciado em janeiro deste ano pelo governo Lula, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) teria como suposto objetivo garantir “novos” investimentos (cerca de R$) para a infra-estrutura social e urbana, logística e energia, proporcionando, assim, o crescimento do país. Entretanto, o PAC não traz novos recursos além daqueles já previstos no Orçamento Geral da União (OGU); a novidade do programa é que ele está articulado com a implementação das “reformas” (na verdade, contra-reformas) que, se aprovadas, retirarão a espinha dorsal dos direitos dos trabalhadores.
Dos 504 bilhões do PAC, R$ 219 bilhões são de empresas e órgãos estatais (sobretudo a Petrobrás), as quais, muito antes do “plano”, já indicavam em suas planilhas estes investimentos. Seu destino é o financiamento em obras de energia (como barragens para usinas hidrelétricas, dentre outros) em parcerias com empresas privadas. Outros R$ 217 bilhões são recursos privados provenientes da soma dos balanços das empresas nacionais e estrangeiras, já há tempo projetado em seus investimentos, mas sem nenhuma garantia de que invistam, pois no PAC não há mecanismo que obrigue o empresariado a fazê-lo. E R$ 68 bilhões adviriam do Plano Plurianual 2004-2007 elaborado por Guido Mantega ainda na condição de ministro do Planejamento, para investimentos em transporte e obras. Se houver algum novo investimento, este advirá da retirada de R$ 5 bilhões depositados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS, pertencentes à poupança dos trabalhadores), para especulação no mercado financeiro. Portanto, o PAC além de peça de propaganda do governo Lula, permite a continuidade da política de privilegiar os grandes monopólios nacionais e estrangeiros, o latifúndio, setores exportadores e deste modo os interesses do imperialismo.
Com a aproximação do fim de um ciclo de exíguo crescimento, atravessado pela crise crônica de rentabilidade do capital, só as contra-reformas articuladas com o PAC podem assegurar à burguesia nativa e estrangeira a manutenção de seus lucros e privilégios. O “espetáculo do crescimento” não virá para o operariado e as massas populares: as contra-reformas garantirão o crescimento exclusivo do grande capital, restringindo o espaço de participação dos trabalhadores nos destinos da nação, elevando o grau de opressão e exploração.
A primeira “reforma” exigida pelo capital é a da previdência. Com a justificativa de que o sistema previdenciário brasileiro é deficitário, pretende-se estabelecer juridicamente que o regime de previdência seja privatizado (por completo ou parcialmente, com fundos privados complementares) e estabeleça-se um cronograma de elevação da idade mínima para aposentadoria, tornando quase impossível aposentar-se. O método para se chegar a este argumento e fazer a campanha pela privatização da previdência é simplesmente contrapor os benefícios previdenciários contra a contribuição sobre a folha de salários, falseando a realidade já que além desta contribuição há as contribuições de impostos como a Cofins, CPMF e CSLL, que financiam a previdência e a tornam, de fato, superavitária.
Há as contra-reformas sindical e trabalhista que “fatiadas”, isto é, implementando-a por partes, o governo já está a impor-la, como foi o caso do Super Simples. A contra-reforma sindical visa, em sua essência que, o que seja acordado entre as centrais sindicais e os patrões prevaleça sobre a legislação trabalhista vigente, além de garantir foro privilegiado aos patrões nas mesas de negociação; ela prevê a transferência do poder de negociação das categorias para as centrais sindicais, interferindo na autonomia dos trabalhadores e inviabilizando o surgimento de novos instrumentos organizativos de base. A trabalhista, acabar com o 13º salário, com a multa do FGTS, restringe o direito de férias e das licenças de saúde e maternidade.
Ao proletariado, às massas oprimidas, aos estudantes e intelectuais honestos cabe organizar a resistência às contra-reformas do grande capital. É preciso que se invista num trabalho de base dedicado a organizar e elevar o nível de consciência da massa; organizar-se por locais de estudo, moradia e trabalho reivindicando melhoras reais no nível de vida do povo, ampliando o espaço de participação dos trabalhadores na sociedade. Neste processo de acumulação de força, é imprescindível ter em vista a construção de um bloco histórico de forças sociais e políticas que viabilize um combate definitivo com os monopólios, o latifúndio e o imperialismo abrindo caminho para uma nova ordem social, qualitativamente superior, plena de sentido, e capaz de possibilitar o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas.

“Reforma” Universitária - UNIVERSIDADE BRASILEIRA: QUEM DÁ MAIS??

A expansão do capitalismo precisa transformar tudo em mercadoria, inclusive a educação.

Faz já algum tempo que ouvimos falar da tal “Reforma Universitária”, com forte propaganda do governo federal, dizendo sempre que “enfim surgem as mudanças que precisava a educação superior no Brasil”. As perguntas que fazemos são: mudança para quem? Este projeto vem solucionar os problemas da universidade (todos sabemos que são muitos) ou aprofundar seu caráter de dependência com relação ao mercado e aos países “desenvolvidos”? Tentaremos neste breve texto colocar um pouco da verdadeira face do PL 7200 que tramita no Congresso Nacional – a Reforma Universitária.

Com um claro caráter de transformar educação em mais uma mercadoria, a reforma universitária vem solucionar os “problemas” universidade brasileira através das exigências do Banco Mundial explicitadas no documento "O BM e o Ensino Superior: Lições Derivadas da Experiência" (1994): as universidades públicas, gratuitas, assentadas na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão não servem para a América Latina. Os governos da região deveriam adotar um modelo mais simplificado em instituições não universitárias e, preferencialmente, privadas ou resultantes de parcerias público-privadas a exemplo do Prouni.

O projeto da Reforma Universitária desobriga o Estado de financiar integralmente a educação, dando abertura para que as administrações das universidades públicas busquem financiamento no capital privado (mercado), a Lei de Autonomia Financeira para as Universidade Públicas. Além disso, nada impede, que com o passar dos anos, que os próprios estudantes sejam obrigados a pagar pela educação “pública”, através das taxas e mensalidades. É necessário percebermos que o direito ao ensino gratuito já foi realidade em instituições que hoje são pagas, como algumas universidade fundacionais que têm caráter público, municipal ou estadual (por exemplo todo o sistema ACAFE em Santa Catarina, que agrega cerca de).

Outra grande afronta ao caráter público e gratuito das universidades federais se dá através da Lei de Inovação Tecnológica. Esta lei irá trazer profundas mudanças, ferindo a autonomia didático-científica, segregando a produção de conhecimento, e assim subordinando as universidades ao setor privado empresarial (sendo que 30% pode ser capital internacional). As universidades passarão a ser instrumentos de empresas e, de acordo com os interesses deste setor, somente poderão produzir tecnologia que esteja voltada às “demandas de mercado”. Desta maneira, a produção de conhecimento gerada com recurso público (desde recursos financeiros, até estrutura física das universidades e professores pagos pelo governo) estará voltada aos interesses privados. Além disto, esta lei permite a patente, pelas empresas, do que é produzido nas universidades públicas. Seria isto a privatização da ciência e tecnologia brasileira?

Um dos pontos já aprovados desta “reforma” é o Programa Universidade Para Todos (PROUNI) que está financiando milhares de vagas ociosas das universidades privadas para estudantes de baixa renda, através da concessão de bolsas. Muitas destas vagas estão em universidades de baixíssima qualidade e ausência total de democracia interna. Essas universidades, como retribuição pela vagas ociosas, ainda recebem isenção fiscal (cerca de 2,7 bi) e outros favorecimentos (mais de 1 bi). No entanto, se este valor, que o governo está deixando de arrecadar ou que investe na educação privada, fosse usado para a abertura de novas vagas integralmente gratuitas em universidades federais, estas beneficiariam um número três vezes maior de estudantes, de acordo com o cálculo da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – ANDES-SN. Sabendo disso, fica claro que o PROUNI visa ajudar as universidades privadas que passavam por crise financeira (muitas vagas ociosas e inadimplência) e não os estudantes de baixa renda. Defendemos que as bolsas do PROUNI sejam redirecionadas para as universidades públicas, estaduais ou federais. Nossa luta é pela federalização das universidades privadas, em especial as que devem impostos para o povo!
Mais recentemente foi apresentado pelo Governo Federal o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), que induz as universidades a se comprometerem com a expansão no número de ingressos e o aumento da taxa média de conclusões na graduação, em até 90% em um prazo de cinco anos. No entanto, essa expansão não vem acompanhada de uma ampliação da infra-estrutura e nem prevê a contratação de novos professores. Ou seja, é uma expansão irreal, pois não está acompanhada de novos investimentos orçamentários. Propõem-se para tanto a alteração da relação estudante/professor que hoje é de 10/1 para 18/1. Se fortalece também a necessidade de mesclar os cursos presenciais com a “modalidade” educação à distância.
Sem dúvida se aprofundará ainda mais a precarização das condições de trabalho e de ensino, seja pelo aumento de estudantes nas turmas, seja por meio da criação de cursos novos, sem as mínimas condições de funcionamento. A nova relação professor/aluno ignora o trabalho desenvolvido pelo docente em atividades de pesquisa e de extensão. Essa é a idéia central da proposta “Universidade Nova”, dos reitores da UFBA e da UNB e de mais 8 universidades federais, que flexibiliza as grades curriculares e cria um “bacharelado interdisciplinar”, como continuação do ensino médio. No decorrer de dois ou três anos o estudante teria direito a um diploma de graduação. A partir daí iniciar-se-ia uma grande competição para as poucas vagas dos cursos profissionalizantes.
Portanto, a comunidade universitária, os movimentos sociais e os setores sociais devotados à causa da educação pública não podem se furtar da luta para impedir que a velha agenda, sob o manto de “reforma”, destrua o importante patrimônio social que são as universidades públicas, transformando tudo em ensino privado. Não podemos esmorecer frente a mais essa ofensiva contra os direitos do povo, assumindo papel protagonista, como estudantes universitários, na defesa do que já conquistamos e por uma agenda capaz de revolucionar realmente a universidade brasileira e abri-la aos interesses populares. Muitos são os que resistem a essa “reforma às avessas”. Está em formação a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária, que a cada dia ganha mais força junto a estudantes e trabalhadores em todo o país (de centros acadêmicos, DCEs, executivas de curso, sindicatos de professores e servidores...), unificados em um só objetivo: barrar essa reforma universitária.

Fontes:

Analise do Projeto de Lei 7200/2006 – A educação superior em perigo. ANDES-SN

'Fast delivery' diploma: a feição da contra-reforma da educação superior. Roberto Leher, professor da faculdade de educação da UFRJ

O BM e o Ensino Superior: Lições Derivadas da Experiência (1994). Documento do Banco Mundial


POR UM NOVO MOVIMENTO ESTUDANTIL, construído de “baixo para cima”

Não Há Vento Favorável Para Quem Não Sabe A Que Porto Se Dirige” Sêneca,

A universidade brasileira está em disputa. De um lado os setores que vêem nela um instrumento para manter sua hegemonia de poder, manter o status quo, produzir ciência e conhecimento a serviço de um projeto societário de exploração do homem pelo próprio homem, no qual tudo, até mesmo a vida humana (e quem diria então a educação), torna-se mercadoria. De outro, estudantes e trabalhadores que percebem nela contradições que permitem prosseguir na luta por uma universidade que contribua no processo de emancipação dos explorados, que produza conhecimento para a resolução dos problemas mais urgentes do povo brasileiro.
Nessa disputa nós - estudantes universitários - construímos instrumentos de organização autônoma para o enfrentamento desses projetos antagônicos. Os Centros Acadêmicos (CAs), os Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs), as Uniões Estaduais de Estudantes (UEEs) e a União Nacional dos Estudantes (UNE) deveriam servir a nossa luta por um projeto popular para a universidade, em oposição a universidade que sirva para fortalecer a dominação de uma minoria e ao fortalecimento do sistema capitalista.
Nossas entidades podem tornar-se espaços de uma nova forma de organização, em que valores como a cooperação, a democracia e a direção coletiva se fortaleçam, superando o individualismo, a falta de democracia e a burocracia excessiva, tão presentes na sociedade capitalista. As entidades estudantis têm o desafio de superar as velhas formas de organização, que afastam o conjunto dos estudantes de seu controle.
Em se tratando da UNE, a indignação toma conta dos nossos sentimentos. Hoje (e há mais de uma década) essa entidade tem se afastado progressivamente das bases estudantis, sempre com o mesmo grupo político no poder: a UJS e seus aliados. Este grupo enraizou-se na direção da entidade através de práticas fraudulentas, oportunistas e sempre de “cima para baixo”, tratando os estudantes como massa de manobra. Para manter-se no controle da entidade retirou da pauta da entidade as bandeiras históricas do movimento estudantil, afastando a discussão política para dificultar o controle da UNE pelos estudantes. Vale ressaltar que a UNE exerce pouco, ou quase nenhum, controle sobre o movimento estudantil real, na prática cotidiana dentro das universidades.
A UNE, que historicamente serviu como nosso instrumento de embate com o projeto hegemônico de sociedade e de universidade, trabalha, nos últimos anos, na contramão das lutas por democratização, por ampliação e defesa da educação pública. A UNE não fala em nosso nome quando defende um projeto mercantilista de reforma universitária, que transforma um direito de todos (como diz o artigo 205 da constituição) em serviço que pode ser comprado e vendido. A UNE não fala em nosso nome quando afasta a discussão política dos estudantes, manipulando congressos, fraudando delegados, diminuindo o controle da entidade pelas bases (os delegados, antes eleitos por curso, agora são eleitos por universidade). A UNE não fala em nosso nome quando se alia à rede Globo, e a qualquer empresa privada. A UNE não fala em nosso nome!
No entanto, o que devemos compreender, para não cairmos no idealismo imaturo de apenas negar a entidade, é que os estudantes que participam dos espaços da UNE não são marionetes (apesar de tratados como). Nossa luta deve ser construída nacionalmente, o que exige dedicação e paciência. Assim, o fundamental é aglutinamos forças nacionalmente para barrarmos essa reforma universitária do governo Lula. O CONUNE deve servir para agregar setores do movimento estudantil das universidades públicas e das privadas, para que possamos construir um pólo unificado cada vez maior de resistência à permanente tentativa de privatização da educação superior pública, fazendo oposição a UNE, ao governo e aos empresários da educação. Além disso, o nosso desafio é construir, em todos os espaços de disputa, a união dos estudantes em torno de um projeto: a universalização da educação pública, gratuita e de qualidade como um direito de todos; e pela construção de uma universidade brasileira crítica ao capitalismo e que esteja a serviço da transformação social, da construção de uma nova sociedade.
É preciso compreender a complexidade da luta e que somente um movimento que se dedique para elevar o nível de organização e de consciência dos estudantes terá êxito no futuro. Não há saídas imediatas e a questão passa necessariamente pela capacidade de inovarmos no conteúdo e em nossos métodos.
Devemos rechaçar as disputas que insistem em impor uma alternativa de “cima para baixo”. O movimento estudantil não passa por uma crise de direção e seu problema está longe de ser resolvido pela simples troca nas entidades das forças que o compõe. Nossa tática deve priorizar a luta travada de “baixo para cima”, fazendo o debate ideológico e possibilitando que as organizações estudantis de base ganhem mais força e legitimidade perante o conjunto dos estudantes.
Combater a traição do setor majoritário na direção da UNE (UJS e aliados) não se resolverá com a tática de aglutinar para ganhar a direção. Ou então de criar uma nova entidade em nível nacional. Nossos esforços devem estar voltados para abrir os olhos do maior número de estudantes possível e das forças políticas existentes, mostrando que é necessário criar uma unidade em torno de um programa e de uma pratica que seja capaz de derrotar todas as tentativas de mercantilização do ensino superior e que ao mesmo tempo faça o debate estratégico sobre o papel da universidade.
Será através da organização e da mobilização das bases estudantis e das vitórias que obtermos que as alternativas serão criadas, num processo legítimo aonde as lideranças vão nascendo pelas causas e as lutas que se dedicaram. Colocando, assim, na ordem do dia a questão da direção e dos rumos da União Nacional dos Estudantes. O velho maniqueísmo entre o bem e o mal, da suposta maioria e minoria e os atropelos em torno do sectarismo só nos levará ao isolamento e a derrocada do próprio movimento estudantil.
Inovar no conteúdo significa que o ME necessita lutar por uma nova universidade, se dedicar mais na construção desse projeto e ao mesmo tempo aprofundar sua relação com outros setores da sociedade e o movimento popular em geral, afinal estes também querem a transformação da universidade brasileira.
Inovar no método significa que devemos lutar para que as entidades estudantis sirvam para representar os interesses dos estudantes, suas aspirações políticas, culturais, econômicas ou cientificas. Parece óbvio dizer isso, mas no dia-dia do ME não é o que acontece. As entidades estão cada vez mais partidarizadas, superburocratizadas e menos representativas dos anseios e da vontade dos estudantes. Por isso devemos rechaçar toda forma de atrelamento dos partidos políticos, construindo um movimento que parta das necessidades mais sentidas dos estudantes para aquelas que dizem respeito à transformação da universidade e da sociedade. Não se trata de negar a presença e a importância dos partidos, mas de estabelecer devidamente as fronteiras e não deixar que o Movimento Estudantil sirva de instrumento desse ou daquele partido, mas sim dos estudantes.
Os setores mais combativos, por outro lado, não conseguiram instituir uma nova dinâmica. Ficam há anos dizendo que se trata de um problema de direção, que basta trocar um setor por outro e priorizam travar a luta pelas estruturas. Enquanto isso as questões centrais tornam-se secundárias. Mas não existe outra perspectiva ou um caminho mais curto, como o de construir de imediato uma nova entidade. O desafio está posto: reorganizar o movimento estudantil de “baixo pra cima”, sem fórmulas mágicas. Este trabalho exige paciência e unidade de ação dos setores mais combativos do movimento estudantil.

POR UMA UNIVERSIDADE CRÍTICA, CRIADORA E POPULAR

"Ou os estudantes se identificam com o destino de seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam de seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo” Florestan Fernandes

A universidade que queremos definitivamente não é esta que observamos ao nosso redor. Não é a que temos hoje e muito menos a que querem nos impor com essa “reforma” universitária! A ciência e a tecnologia têm perdido o horizonte da superação dos graves problemas sociais do país, voltando-se, ao contrário, para o mercado, ao invés de produzir ciência e tecnologia para as necessidades mais sentidas da população pobre do campo e da cidade. O ensino e a pesquisa, através da extensão universitária, deveriam contribuir para socialização em massa do patrimônio cultural, histórico e científico acumulado pela humanidade, fomentar o desenvolvimento social integral, e não o mesquinho desenvolvimento econômico restrito a minorias empresariais.
Porém, para transformarmos esta realidade precisamos construir um movimento que, com suas próprias instâncias de organização e dinâmica, não reproduza os velhos vícios do movimento estudantil. É preciso que o movimento se constitua no estreito vínculo com as massas estudantis, forjando-se na luta cotidiana a partir das necessidades mais sentidas, irrompendo um forte movimento de massas de baixo para cima, buscando abrir brechas nas contradições da universidade para o ingresso dos setores populares excluídos dela. Um movimento que se mantenha independente das concepções e interesses das classes dominantes e que, no interior da universidade, sirva às causas populares e por concepções teóricas críticas, disputando com as classes dominantes a produção de conhecimento, ciência e tecnologia em prol da maioria da população explorada e oprimida. Um movimento universitário que, a partir do vigor e iniciativa dos estudantes, aproxime professores e os servidores técnico-administrativos para este projeto de disputa da universidade. Um movimento que se constitua junto com a classes exploradas, que aproxime a universidade dos movimentos populares e realize a luta, não só de dentro para fora, mas também de fora para dentro.
É por esse projeto ousado que chamamos todos os lutadores e lutadoras a vir construir conosco um movimento universitário de novo tipo, de “baixo pra cima”, sem cartas marcadas, como os congressos da UNE, que tenha como projeto a clara disputa desta universidade. Para isto devemos nos ligar profundamente com as lutas das classes exploradas e oprimidas pelo sistema capitalista, construindo estrategicamente neste processo, sob as ruínas da universidade “dos poderosos” e do sistema capitalista, uma universidade popular, no seu conteúdo e na sua composição, crítica à sociedade de exploração do homem pelo homem e que destrói nosso habitat e, por fim, criadora de ciência e tecnologia para a emancipação do povo e a construção de uma sociedade humana.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!
Esse é o caminho que possibilita uma real mudança e que muitos não querem trilhar! Construir o movimento estudantil na base, de baixo pra cima!